Para encontrar uma criança com Hipofosfatasia (HPP), todo mundo pode ser uma fada do dente.

A hipofosfatasia (HPP) é uma doença hereditária progressiva que afeta a mineralização óssea e pode se manifestar de formas variadas ao longo da vida, exigindo atenção clínica contínua para diagnóstico precoce e manejo adequados¹⁻⁷.

Neste vídeo, a Dra. Ana Maria Martins (CRM SP0036649) aborda um tema essencial, “O impacto da HPP (Hipofosfatasia) na qualidade de vida dos pacientes”, destacando aspectos físicos, emocionais e sociais. Especializada em genética e pediatria, ela reforça a importância do diagnóstico precoce e do cuidado multidisciplinar ao longo da vida do paciente.

Sobre a doença

Entender a hipofosfatasia é fundamental para melhorar a qualidade de vida dos pacientes acometidos por esta doença genética rara.1-3

O que é a HIPOFOSFATASIA (HPP)1-3

A Hipofosfatasia (HPP) é uma doença metabólica e hereditária rara, causada por mutações no gene ALPL, que resulta na deficiência de atividade da enzima fosfatase alcalina de tecido não específico (TNSALP).

O papel da fosfatase alcalina1-3

A fosfatase alcalina (FAL) desempenha um papel fundamental na mineralização óssea ao hidrolisar o pirofosfato inorgânico (PPi) em fosfato, o qual é um componente essencial para a formação dos cristais de hidroxiapatita (o principal mineral do osso).

Na ausência de atividade adequada da TNSALP, há um acúmulo de PPi, que impede a mineralização adequada, resultando em ossos moles e frágeis.

Além disso, a deficiência de FAL afeta a hidrólise de Piridoxal-5'-fosfato (PLP), uma forma de vitamina B6, levando, por exemplo, a sintomas neurológicos em alguns pacientes.

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Classificação da hipofosfatasia (HPP)2-4

A Hipofosfatasia (HPP) é classificada em diferentes tipos, com base na idade de início e na gravidade dos sintomas:

Perinatal

Forma mais grave, muitas vezes, resultando em morte intrauterina ou logo após o nascimento em razão da falência respiratória e hipomineralização óssea severa.

Infantil

Inicia-se nos primeiros seis meses de vida, com raquitismo grave, fraturas frequentes, problemas respiratórios e hipercalcemia.

Juvenil

Com início, geralmente, entre 6 meses e 18 anos, apresenta sintomas de dor óssea, queda prematura de dente com raiz, fraturas recorrentes, dificuldades no crescimento, fadiga recorrente que pode prejudicar a prática de atividades físicas e sociais.

Adulto

Início na idade adulta, geralmente caracterizada por fraturas recorrentes do metatarso, dor óssea crônica, pseudofraturas, fraqueza muscular, fadiga persistente.

Manifestações clínicas da hipofosfatasia (HPP)1-3

As manifestações clínicas da Hipofosfatasia (HPP) variam amplamente em severidade e podem surgir em qualquer idade. Em casos graves, os sintomas podem aparecer já no útero ou logo após o nascimento. Em casos mais leves, os sintomas podem não aparecer até a idade adulta impactando a qualidade de vida desses pacientes.

Alguns tipos de manifestações incluem:1-3

Ósseas

Baixa estatura, baixo peso, ossos frágeis, fraturas frequentes e deformidades esqueléticas.

Dentárias

Perda precoce dos dentes, com a raiz intacta e sem sangramento, especialmente incisivos, e problemas na mineralização dentária.

Musculoesqueléticas:

Fraqueza muscular e dor óssea.

Respiratórias

Comprometimento da caixa torácica e insuficiência respiratória nas formas mais graves. 

Outras

Problemas renais, relacionados ao acúmulo de cálcio, e convulsões, principalmente após o nascimento, em razão do acúmulo da vitamina B6.

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Diagnóstico da HPP5

O diagnóstico de HPP é feito com base em sinais e sintomas, bem como complicações da doença, e na combinação de achados clínicos, histórico familiar, exames laboratoriais e de imagem. A saber:

Exames laboratoriais

  • Fosfatase

    Fosfatase alcalina (FAL) sérica baixa
    O marcador mais importante. Valores persistentemente abaixo da faixa normal para a idade levantam forte suspeita.

  • Piridoxal-5-fosfato

    Piridoxal-5-fosfato
    (PLP - forma ativa da vitamina B6) plasmático elevado. O acúmulo ocorre pela deficiência de FAL.

  • PTH e vitamina D

    PTH e vitamina D
    Geralmente normais na HPP — auxiliam a diferenciar o diagnóstico de raquitismo nutricional.

  • Cálcio e fosfato séricos

    Cálcio e fosfato séricos
    Podem estar normais ou levemente elevados. Importante para excluir outras causas.

Análise genética

Identificação de mutações no gene ALPL, responsável pela produção da FAL, pode confirmar o diagnóstico, mesmo não sendo obrigatório para a conclusão. Em alguns casos, a análise genética também orienta o prognóstico e o aconselhamento familiar.

Exames de imagens

As radiografias são valiosas no diagnóstico de HPP. O exame de imagem é útil para identificar características de raquitismo ou craniossinostose em crianças (quando as suturas do crânio do bebê se fecham prematuramente, resultando em uma forma anormal do crânio e possivelmente causando complicações neurológicas).

Também em crianças e adultos podem evidenciar fraturas e pseudofraturas, típicas da osteomalácia, além de condrocalcinose com deposição de pirofosfato de cálcio dentro e ao redor das articulações (quadris, joelhos e punhos). Outro achado característico são as chamadas línguas de radioluminescência, frequentemente observadas nas radiografias de pacientes com HPP.

Radiografia A: fêmur de arco curto
Radiografia B: Cúbito com raio de esporão
Radiografia C: costelas finas e mal ossificadas
TAC D: suturas largas e fontanelas

HPP numa menina de 3 meses. (a-c) Radiografias mostram fêmur de arco curto (a). Cúbito com raio de esporão do antebraço direito (b) e costelas finas e mal ossificadas (c). TAC mostra suturas largas e fontanelas (d).

Fonte: Hall CM, et al (2012) Diagnosis of fetal skeletal dysplasias. In: Fetal and perinatal skeletal dysplasias: an atlas of multimodality imaging. Radcliffe Publishing, London

CONHECENDO FATORES CLÍNICOS

HPP Perinatal

HPP Perinatal

Início

Antes ou logo após o nascimento

Manifestações Principais

  • Hipomineralização óssea grave
  • Deformidades esqueléticas
  • Insuficiência respiratória por tórax insuficiente
  • Convulsões dependentes de B6

Prognóstico

Grave
Alta mortalidade sem tratamento.

HPP Infantil-adolescente

HPP Infantil-adolescente

Início

Primeiros meses a primeiros anos de vida

Manifestações Principais

  • Atraso na aquisição motora
  • Fraturas de baixo impacto
  • Perda precoce de dentes decíduos
  • Deformidades ósseas
  • Baixa estatura
  • Sintomas não ósseos
  • Infecções pulmonares

Prognóstico

Variável
De moderada a grave, pode melhorar com tratamento precoce.

HPP Adulto

HPP Adulto

Início

Adolescência tardia ou idade adulta

Manifestações Principais

  • Dor óssea crônica
  • Fraturas recorrentes
  • Osteomalácia
  • História de perda dentária precoce ou problemas ortodônticos
  • Fraqueza muscular e fadiga

Prognóstico

Geralmente menos grave a moderada, mas subdiagnosticada. Impacto na qualidade de vida, desde a infância, em todas as fases da vida.

No diagnóstico da HPP, a FAL baixa é um critério obrigatório, associado à avaliação dos sinais clínicos.

Adaptado de Dahir KM, et al.GeneReviews®. Seattle (WA): University of Washington, Seattle; 1993-2025.

Acompanhamento e qualidade de vida1

O tratamento da hipofosfatasia envolve o controle da doença e a gestão dos sintomas que cada indivíduo apresenta. Dentre as opções estão:

Terapia de reposição enzimática:

Administração de enzimas para ajudar na mineralização óssea.

Cuidados dentários:

Monitoramento e tratamento para preservar a saúde dos dentes.

Fisioterapia:

Para melhorar a mobilidade e fortalecer os músculos.

Cirurgia:

Para corrigir deformidades ósseas.

Conviver com a Hipofosfatasia (HPP) ainda exige gerenciamento cuidadoso, em centros especializados, e o apoio de uma equipe multidisciplinar, incluindo cirurgiões ortopédicos, pediatras, dentistas, endocrinologistas, neurologistas, fisiatras, pneumologistas e nutricionistas.1

PERGUNTAS FREQUENTES

Não. A HPP é uma doença multissistêmica e progressiva, que pode afetar não apenas os ossos, mas também dentes, músculos, rins e até o sistema neurológico.1–4

Faixa etária Principais manifestações não ósseas Outras manifestações Marcador laboratorial
Infância
(perinatal e infantil precoce)
  • Convulsões responsivas à vitamina B61-4
  • Perda precoce dos dentes de leite (raiz íntegra, sem sangramento)1-5
  • Problemas respiratórios (falência ventilatória nas formas graves)1-3
  • Irritabilidade, dificuldade alimentar e baixo ganho de peso
  • Hipercalcemia e complicações renais2-3
  • FAL persistentemente baixa, ajustada por idade e sexo1-5
Juventude / adolescência
  • Perda dentária precoce persistente1-3
  • Fraqueza muscular e fadiga2-6-7
  • Complicações renais (nefrocalcinose, litíase)1-5
  • Dor musculoesquelética difusa
  • Impacto psicossocial (autoestima, convívio social)
  • Distúrbios respiratórios leves secundários a deformidades2-3
  • FAL persistentemente baixa, ajustada por idade e sexo1-5
Vida adulta
  • Perda dentária precoce de dentes permanentes2-5
  • Dor musculoesquelética crônica e fadiga2-6-7
  • Nefrocalcinose e litíase renal1-5
  • Condrocalcinose (calcificação em articulações)1-2
  • Fraqueza muscular
  • Impacto cognitivo e funcional7
  • Transtornos emocionais (ansiedade, depressão)6
  • FAL persistentemente baixa, ajustada por idade e sexo1-5

Sim. A doença é hereditária e progressiva, variando de formas graves, que podem levar ao óbito neonatal, até apresentações menos graves em adultos.1-4

A Hipofosfatasia (HPP) pode comprometer a qualidade de vida em todas as fases da vida, com manifestações que mudam ao longo do tempo:

  • Infância: atraso no desenvolvimento motor, dificuldades para engatinhar e andar, baixa estatura, dor óssea, fraturas, perda precoce dos dentes de leite (com raiz íntegra) e, em casos graves, comprometimento respiratório. Essas limitações podem restringir a participação da criança em brincadeiras e atividades escolares.1-4

  • Juventude/adolescência: dor musculoesquelética persistente, fadiga, dificuldade para praticar esportes e acompanhar colegas em atividades físicas, além de impacto na autoestima e no convívio social.2-5-7

  • Vida adulta: dor crônica, fadiga, pseudofraturas, dificuldade para caminhar ou subir escadas, marcha lenta e limitação para atividades do dia a dia, como carregar peso ou se levantar de uma cadeira. Estudos mostram que muitos adultos com HPP apresentam comprometimento funcional e até cognitivo, afetando independência e produtividade.2,6,7 Esses impactos reforçam a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento multidisciplinar, uma vez que a doença é progressiva e suas consequências podem ser cumulativas ao longo da vida.1-3-5

O manejo deve ser multidisciplinar, incluindo reumatologistas, endocrinologistas, geneticistas, ortopedistas, odontologistas, pediatras, fisiatras, fisioterapeutas e nutricionistas, entre outros.1-3

Se você não for especialista em doenças metabólicas raras, deve encaminhar para reumatologistas, endocrinologistas ou geneticistas, que são os mais indicados para confirmar o diagnóstico e orientar o tratamento.1-3-5

  • Fraturas recorrentes ou de má cicatrização
  • Pseudofraturas
  • Perda precoce de dentes (raiz íntegra, sem sangramento)
  • Dor musculoesquelética crônica
  • Condrocalcinose e nefrocalcinose
  • Convulsões responsivas à vitamina B61-5

O principal marcador é a Fosfatase Alcalina (FAL) persistentemente baixa, ajustada por idade e sexo. Outros achados incluem vitamina B6 elevada.1-2-5

Não é obrigatório, mas pode confirmar mutações no gene ALPL, apoiar o diagnóstico clínico e auxiliar no aconselhamento familiar e reprodutivo.1-2-5

Radiografias podem mostrar raquitismo, craniossinostose, pseudofraturas e osteomalácia. Um achado característico são as “línguas de radioluminescência”. Métodos como RM, TC e ultrassonografia renal podem complementar a avaliação.1,2,5

O diagnóstico exige FAL baixa persistente + critérios clínicos.

  • Crianças: 2 critérios maiores ou 1 maior + 2 menores.
  • Adultos: 2 critérios maiores ou 1 maior + 2 menores.

Exemplos de critérios incluem mutação em ALPL, fraturas atípicas, perda dentária precoce, atraso motor, dor crônica e nefrocalcinose.5

Sim. O atraso diagnóstico pode chegar a anos, principalmente em adultos, o que aumenta o risco de complicações multissistêmicas.2,5,7

O manejo deve ser individualizado, incluindo:

  • Terapia de reposição enzimática
  • Acompanhamento odontológico
  • Fisioterapia e reabilitação funcional
  • Tratamento de complicações renais/ortopédicas
  • Apoio psicológico e nutricional1–3,6

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Referências bibliográficas:
  1. Tournis S, Yavropoulou MP, Polyzos SA, Doulgeraki A. Hypophosphatasia. J Clin Med. 2021 Dec 1;10(23):5676.
  2. Bianchi ML. Hypophosphatasia: an overview of the disease and its treatment. Osteoporos Int. 2015 Dec;26(12):2743-57.
  3. Rockman-Greenberg C. Hypophosphatasia. Pediatr Endocrinol Rev. 2013 Jun;10 Suppl 2:380-8.
  4. Whyte MP. Hypophosphatasia. In: Glorieux FH, Pettifor JM, Juppner H, eds. Pediatric Bone: Biology & Diseases. 2nd ed. London, UK: Elsevier Inc.; 2012:771-794.
  5. Khan AA, Brandi ML, Rush ET, et al. Hypophosphatasia diagnosis: current state of the art and proposed diagnostic criteria for children and adults. Osteoporos Int. 2024 Mar;35(3):431-438. doi: 10.1007/s00198-023-06844-1. Epub 2023 Nov 20. Erratum in: Osteoporos Int. 2024 May;35(5):933-934.
  6. Kraus DA, Medibach A, Behanova M, Kocijan A, Haschka J, Zwerina J, Kocijan R. Nutritional Behavior of Patients with Bone Diseases: A Cross-Sectional Study from Austria. Nutrients. 2024 Jun 18;16(12):1920.
  7. Durrough C, Colazo JM, Simmons J, Hu JR, Hudson M, Black M, de Riesthal M, Dahir K. Characterization of physical, functional, and cognitive performance in 15 adults with hypophosphatasia. Bone. 2021 Jan;142:115695.