Manejo de apresentações clínicas
de pacientes onco-hematológicos

Introdução

Neoplasias hematológicas, tais como a Leucemia Linfocítica Crônica (LLC) e o Linfoma de Células do Manto (LCM),
resultam da proliferação clonal de linfócitos B maduros. Estas células podem se acumular no sangue, em
linfonodos, no baço e na medula óssea1. A infiltração de células neoplásicas compromete a função normal desses
órgãos e tecidos, que constituem parte importante do sistema imunológico2. Consequentemente, pacientes onco-
hematológicos apresentam quadros clínicos que exigem um manejo e monitoramento cuidadosos3. 

Importância do estadiamento e da avaliação de fatores prognósticos 

Os sistemas de estadiamento clínico Rai e Binet para a LLC e Lugano para o LCM são utilizados para estratificar
os pacientes em grupos de risco prognósticos de acordo com a quantidade de células neoplásicas no sangue ou com o
número de órgãos envolvidos3,4. Entretanto, identificar fatores prognósticos relacionados a características
biológicas do tumor é tão importante quanto o estadiamento clínico para determinar a agressividade da doença. A
tabela 1 mostra os principais fatores de risco prognóstico para LLC e LCM1,3,4

Quanto mais avançado o estágio da doença e quanto maior a presença de fatores prognósticos negativos, maior é o risco de
o paciente exibir apresentações clínicas1,3,4. Portanto, a frequência de monitoramento dos pacientes deve ser
proporcional ao seu nível de risco1,3,4

Tabela 1. Fatores de risco prognóstico para LLC e LCM1,3,4 
LLC
LCM
 Fatores prognósticos relacionados a biologia do tumor 
Mutação ou deleção de TP53 
IGHV não mutado 
Deleção 17p 
Deleção 11q 
Mutação ou deleção de TP53 
Índice de proliferação Ki-67 
Citologia Blastoide 
Citologia Pleomórfica 
   Outros fatores prognósticos 
Status de performance ECOG > 2 
Idade avançada (> 65 anos) 
Status de performance ECOG > 2 
Idade avançada (> 65 anos) 

Infecções
e profilaxia 

Neoplasias hematológicas com frequência comprometem a função normal do sistema imunológico e induzem a
um quadro de imunodeficiência3. Logo, os pacientes estão sujeitos a diferentes quadros de infecção como
pneumonias, colites, infecções de pele e do trato urinário causadas por patógenos oportunistas5,6. O risco para
essas infecções aumenta conforme a doença progride5

A profilaxia antimicrobiana em pacientes onco-hematológicos varia de acordo com o tipo de terapia utilizada e o
estágio do tratamento5. Para pacientes que não estão recebendo terapia ativa ou que estão recebendo um agente
alquilante, lenalidomida, inibidor de BCL2, anti-CD20 ou inibidor da tirosina quinase de Bruton (iBTK), a profilaxia
antimicrobiana não é recomendada
5,7. Tais pacientes devem permanecer sob observação frequente e iniciar
rapidamente o tratamento em caso de suspeita de infecção5

Por outro lado, pacientes que recebem regimes baseados em análogos de purina (independente da combinação)
estão em maior risco para infecções oportunistas. Nesses casos, a profilaxia antiviral e contra Pneumocystis é
recomendada5,7.

  A administração de fatores de crescimento mieloide (G-CSF e GM-CSF) em pacientes que apresentam ou têm um
risco superior a 20% de desenvolver neutropenia deve seguir diretrizes estabelecidas para o manejo de infecções
em pacientes onco-hematológicos, tais como as diretrizes da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas5

Vacinações

Uma vacinação adequada é importante para pacientes onco-hematológicos. Todavia, a administração de vacinas
não é indicada durante períodos de imunossupressão, tendo em vista que sua eficácia pode ser comprometida5,7.
A vacinação em pacientes imunossuprimidos pode resultar em uma imunização sub-ótima devido a apresentação
de antígenos comprometida e produção de anticorpos deficitária5,6. Por isso, a principal recomendação para
pacientes onco-hematológicos é realizar as vacinações
, especialmente a pneumocócica, antes de iniciar o
tratamento. Isso ajuda a reduzir o risco de infecção após o início do tratamento8

Anemia 

A anemia é uma complicação comum da LLC e do LCM em estágios avançados e pode possuir causas multifatoriais
decorrentes da expansão e infiltração de células neoplásicas em outros tecidos, como hiperesplenismo, infiltração
da medula óssea, perda de sangue gastrointestinal, supressão da medula óssea induzida por quimioterapia,
hemólise autoimune ou aplasia de células vermelhas do sangue7. A identificação da origem e do tipo de anemia é
essencial, tendo em vista que o manejo e o tratamento devem ser direcionados à causa subjacente7.  

Trombocitopenia 

A trombocitopenia pode ocorrer em diferentes momentos no curso da LLC e do LCM. Normalmente, a
trombocitopenia grave (contagem de plaquetas abaixo de 50.000/ μL) ocorre apenas em estágios avançados da
doença. Suas causas são multifatoriais e incluem supressão da produção de plaquetas devido à carga tumoral
extensa, destruição autoimune, hiperesplenismo, presença de infecções e quimioterapia7,9

O manejo da trombocitopenia em pacientes onco-hematológicos também depende da identificação de sua causa
subjacente7,9. A trombocitopenia devido à carga tumoral extensa geralmente melhora com a introdução de uma
nova linha de tratamento. Entretanto, ela pode ser agravada em pacientes refratários. Já os casos decorrentes de
hiperesplenismo podem demandar a realização de esplenectomia, enquanto casos provocados por infecções
requerem tratamento antibiótico/antiviral com subsequente monitoramento do quadro7. S

Conclusão

Em resumo, os pacientes onco-hematológicos podem apresentar diversas manifestações clínicas resultantes da
expansão e infiltração de clones neoplásicos na circulação e em diferentes órgãos e tecidos. Dessa forma, o
monitoramento constante dos pacientes e a identificação das causas subjacentes das manifestações clínicas é
essencial para o manejo adequado dos pacientes onco-hematológicos.

Referências

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maio de 2018;131(21):2283–96. 
2. Hallek M, Al-Sawaf O. Chronic lymphocytic leukemia: 2022 update on diagnostic and therapeutic procedures. American Journal of Hematology.
2021;96(12):1679–705.
  3. Hallek M, Cheson BD, Catovsky D, Caligaris-Cappio F, Dighiero G, Döhner H, et al. iwCLL guidelines for diagnosis, indications for treatment, response
assessment, and supportive management of CLL. Blood. 21 de junho de 2018;131(25):2745–60.
4. Jain P, Wang ML. Mantle cell lymphoma in 2022-A comprehensive update on molecular pathogenesis, risk stratification, clinical approach, and current and novel
treatments. Am J Hematol. maio de 2022;97(5):638–56.
  5. Morrison VA. Prevention of infections in patients with chronic lymphocytic leukemia - UpToDate [Internet]. [citado 27 de abril de 2024]. Disponível em:
https://www.uptodate.com/contents/prevention-of-infections-in-patients-with-chronic-lymphocytic-leukemia 
6. Morrison VA. Risk of infections in patients with chronic lymphocytic leukemia - UpToDate [Internet]. [citado 27 de abril de 2024]. Disponível em:
https://www.uptodate.com/contents/risk-of-infections-in-patients-with-chronic-lymphocytic-leukemia 
7. Stilgenbauer S, Rai KR. Overview of the complications of chronic lymphocytic leukemia - UpToDate [Internet]. [citado 27 de abril de 2024]. Disponível em:
https://www.uptodate.com/contents/overview-of-the-complications-of-chronic-lymphocytic-leukemia?topicRef=1405&source=see_link 
8. Haggenburg S, Garcia Garrido H, Kant I, De Boer F, Kersting S, Raa D te, et al. Immunogenicity of the Currently Recommended Pneumococcal Vaccination
Schedule in Patients with Chronic Lymphocytic Leukaemia. Blood. 15 de novembro de 2022;140(Supplement 1):7020–2.
  9. Stilgenbauer S, Furman RR, Zent CS. Management of Chronic Lymphocytic Leukemia. American Society of Clinical Oncology Educational Book [Internet]. 14 de
maio de 2015 [citado 27 de abril de 2024]; Disponível em: https://ascopubs.org/doi/10.14694/EdBook_AM.2015.35.164 

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