Ao longo das últimas décadas, a classificação dos linfomas tem mudado consideravelmente com os avanços nas pesquisas em imunologia e no desenvolvimento de novas metodologias de diagnóstico molecular 1. Os linfomas, em especial os de células B, tais como o linfoma difuso de grandes células B, a leucemia linfocítica crônica e o linfoma de células do manto, constituem um grupo de neoplasias hematológicas clinicamente heterogêneas e com uma importante diversidade genômica 2. Muitas dessas alterações são utilizadas como marcadores diagnósticos e prognósticos ou para monitorar a resposta ao tratamento de pacientes em terapia.
Nesse sentido, a 5ª edição da Classificação de Tumores Hematológicos da Organização Mundial da Saúde (OMS): Neoplasias Linfoides, reconhece a importância crescente de informações genômicas e moleculares na avaliação dos linfomas. Essas informações passaram a ser consideradas essenciais para um diagnóstico preciso ou altamente desejáveis para refinar e complementar o diagnóstico de algumas neoplasias 3.
As alterações genômicas de relevância clínica para os linfomas são bastante diversas e incluem mutações de nucleotídeo único em genes específicos, fusões gênicas, variações do número de cópias, além de desordens cromossômicas como translocações, deleções e trissomias 4. Em virtude disso, durante muito tempo a avaliação abrangente das diversas alterações genômicas relevantes de um linfoma era inviável por demandar o uso de metodologias diferentes para a detecção de cada tipo de alteração 1,4. Entretanto, o desenvolvimento das técnicas de sequenciamento de nova geração (NGS) mudou esse paradigma e tornou possível avaliar os diferentes tipos de alterações genômicas em um único exame, com um custo relativamente acessível 1.
Diversos estudos foram conduzidos para mapear o panorama genômico dos linfomas de células B mais frequentes na população (linfoma difuso de grandes células B, leucemia linfocítica crônica, linfoma folicular e linfoma de células do manto) e correlacionar os resultados com desfechos clínicos e terapias disponíveis 5–8. Tais descobertas permitiram o desenvolvimento de painéis de NGS específicos para essas doenças capazes de analisar dezenas de alterações genômicas potencialmente relevantes para o paciente através de uma única amostra de material genético tumoral 9.
Dentre os linfomas de células B, o linfoma de células do manto (LCM) apresenta características particulares que o distinguem dos demais. O LCM é caracterizado pela translocação t(11;14)(q13;q32), que resulta na fusão IGH::CCND1 com superexpressão do gene CCND1 3,10. Nos últimos anos, a sobrevida de pacientes com LCM aumentou significativamente devido ao desenvolvimento de novas terapias para essa população. Portanto, a classificação precisa de subgrupos prognósticos tornou-se ainda mais relevante 3.
Mutações em TP53, del(11q) e del(17p) são as alterações de maior relevância clínica para a classificação de risco dos pacientes com LCM. Entretanto, desordens somáticas em outros genes podem fornecer informações importantes e complementares para essa classificação 3,10. Por exemplo, mutações em ATM e NOTCH1 e estão associadas à uma doença de progressão mais rápida, enquanto mutações em BIRC3 e TRAF2 têm sido associadas com resistência a determinados tratamentos >6,10. Através do NGS, todas essas informações podem ser obtidas a partir de um único teste.
Logo, as inovações nas técnicas de NGS possuem um papel crucial para a avaliação abrangente e
a classificação precisa dos linfomas, possibilitando que o manejo e tratamento desses pacientes
onco-hematológicos seja realizado através de uma abordagem de medicina personalizada.
Referências
1. Iqbal J, Naushad H, Bi C, Yu J, Bouska A, Rohr J, et al. Genomic signatures in B-cell lymphoma: How can these improve precision in diagnosis and inform prognosis? Blood Reviews. 1o de março de 2016;30(2):73–88.
2. Sujobert P, Le Bris Y, de Leval L, Gros A, Merlio JP, Pastoret C, et al. The Need for a Consensus Next-generation Sequencing Panel for Mature Lymphoid Malignancies. Hemasphere. 27 de dezembro de 2018;3(1):e169.
3. Alaggio R, Amador C, Anagnostopoulos I, Attygalle AD, Araujo IB de O, Berti E, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia. julho de 2022;36(7):1720–48.
4. Ohgami RS, Rosenwald A, Bagg A. Next-Generation Sequencing for Lymphomas: Perfecting a Pipeline for Personalized Pathobiologic and Prognostic Predictions. The Journal of Molecular Diagnostics. 1o de março de 2018;20(2):163–5.
5. Pasqualucci L, Trifonov V, Fabbri G, Ma J, Rossi D, Chiarenza A, et al. Analysis of the coding genome of diffuse large B-cell lymphoma. Nat Genet. setembro de 2011;43(9):830–7.
6. Nadeu F, Delgado J, Royo C, Baumann T, Stankovic T, Pinyol M, et al. Clinical impact of clonal and subclonal TP53, SF3B1, BIRC3, NOTCH1, and ATM mutations in chronic lymphocytic leukemia. Blood. 28 de abril de 2016;127(17):2122–30.
7.Wang L, Lawrence MS, Wan Y, Stojanov P, Sougnez C, Stevenson K, et al. SF3B1 and othernovel cancer genes in chronic lymphocytic leukemia. New England Journal of Medicine.2011;365(26):2497–506.
8.Pastore A, Jurinovic V, Kridel R, Hoster E, Staiger AM, Szczepanowski M, et al. Integrationof gene mutations in risk prognostication for patients receiving first-lineimmunochemotherapy for follicular lymphoma: a retrospective analysis of a prospectiveclinical trial and validation in a population-based registry. The Lancet Oncology. 1o desetembro de 2015;16(9):1111–22.
9.Navrkalova V, Plevova K, Hynst J, Pal K, Mareckova A, Reigl T, et al. LYmphoid NeXt-Generation Sequencing (LYNX) Panel: A Comprehensive Capture-Based Sequencing Toolfor the Analysis of Prognostic and Predictive Markers in Lymphoid Malignancies. J MolDiagn. agosto de 2021;23(8):959–74.
10.Puente XS, Jares P, Campo E. Chronic lymphocytic leukemia and mantle cell lymphoma:crossroads of genetic and microenvironment interactions. Blood. 24 de maio de2018;131(21):2283–96.
BR-31672 (Inovações nos testes diagnósticos para a classificação de linfomas)